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do
Sapo Noturno
REGRA
1
"Qualquer conhecimento anterior sobre feijoada tem apenas valor indicativo,
para os efeitos executivos as quantidades são determinadas pelo
texto dos parágrafos e, desde que não sejam contrárias
a alguma nota de cabeça ou de umbigo, pelas regras seguintes:"
REGRA 2
"Qualquer referência a um ingrediente ou método de execução
em determinado parágrafo, abrange esse ingrediente ou método
mesmo que mal explicado, desde que o ingrediente apresente no estado em
que for encontrado as características essenciais do ingrediente,
abrange igualmente o ingrediente inteiro ou picado ou como tal considerado
nos termos das disposições precedentes."
REGRA 3
"Quando o ingrediente possa parecer-se com outro, por qualquer razão,
o discernimento deve efetuar-se da forma seguinte":
a)a
referência mais específica prevalece sobre as mais genéricas,
todavia, quando dois ou mais ingredientes se pareçam muito e derivem
da mesma região corpórea do animal, devem considerar-se
igualmente específicos, ainda que um deles apresente uma descrição
mais precisa ou completa;
b) os ingredientes misturados apresentados
à venda a granel ou embalados, compostos de animais diferentes
ou não, devem ser evitados ou completamente separados e pesados;
c) nos casos em que as regras 3 a) e 3 b)
não permitam escolher convictamente o ingrediente, vá para
outro fornecedor."
REGRA 4
"Os ingredientes que não possam ser escolhidos por aplicação
das regras acima enunciadas, devem ser escolhidos por aproximação."
MÉTODO
EXECUTIVO
Uma feijoada
demora três dias para ser preparada, que ela não é
comida de parcimônia no tempo de preparo, no número de gentes
que você convidar, na quantidade consumida.
No primeiro dia vamos às compras, dispostos a examinar com vagar
as molezas e as frescuras dos ingredientes que vamos adquirir. (Nota de
cabeça nº 1: este cozido porci-bovino não tem lá
uma composição muito rigorosa, mas é certo que a
experiência na execução de inúmeras preparações
apontou para a relação cabalística de 1:4. Esta é
uma proporção razoável na qual não faltarão
pertences nem feijões; sim, 1 quilograma de feijão para
4 quilogramas de pertences.)
Uma cumbuca de feijoada é como um potinho de surpresas, nunca sabemos
quais pedaços nos foram reservados, quase sempre vemos uma rodela
de lingüiça e uma costelinha ali no meio daquele borbulho.
Por outro lado, alguns ficam acanhados de ficar pescando seu pedaço
predileto no caldeirão, eu não, este é o meu costume.
(Nota de umbigo nº 1: assim sendo, o acaso, seu tirocínio
e seu gosto decidirão a proporção das diversas carnes,
pois na sua origem este era um cozido de sobras). Como ponto de partida,
podemos considerar algo como um pé e uma orelha de porco; dois
gomos de paio, dois de lingüiça portuguesa ou calabresa defumada;
um quilograma de carne seca, um quilograma de costelinhas de porco frescas
ou salgadas. Prefira os ingredientes mais formosos que encontrar. (Nota
de umbigo nº 2: no rol dos candidatos, considere também usar
músculo de boi e lombo de porco frescos). Caso você prefira
somente os músculos estriados e ache deprimente comer músculos
lisos e outros tecidos não vermelhos, pode deixá-los cozendo
inteiros só para dar sabor e retirá-los ao final ou simplesmente
repugná-los.
Atenção especial ao feijão: deve ser novo e do preto.
Se estiver a granel, pegue um grão e trinque nos dentes; se estiver
ensacado, pegue um do cantinho e dê-lhe um beliscão forte.
Quanto mais novo, mais funda a marca da unha ficará no grão,
procure outro fornecedor se esta amostra não lhe agradar, um feijão
novo é relevante para o sucesso do cozido.
O segundo dia é o do preparo. Tome uma panela ou caldeirão
de 10 litros no mínimo. Não adianta barganhar o tamanho
do recipiente, você vai precisar de um deste tamanho para cozinhar,
se não tiver, reduza tudo à metade. Lave os pertences salgados
em água corrente, coloque-os inteiros no caldeirão e cubra
com água. Deixe demolhando por 24 horas. Vigie a temperatura ambiente
e troque a água algumas vezes. Escolha o feijão. Se você
conseguiu um feijão novinho não vai precisar deixá-lo
de molho, caso contrário e num recurso heróico, demolhe
da noite para o dia.
O terceiro dia é o do cozimento. Prepare-se, você vai ter
que levantar cedo. Até a hora de dar por pronto vão se passar
umas 5 horas. Nada deixa mais aflito um cozinheiro do que um grupo de
amigos esfaimados e já meio bêbados de caipirinha perguntando
se a comida está pronta.
Hora de reger a orquestra e fazer tudo na seqüência certa.
Escorra e reserve os pertences, coloque metade do caldeirão de
água para ferver. Coloque outro caldeirão com cerca de 5
litros de água para ferver, assim vai ganhar tempo quando for colocar
o feijão pra cozinhar. No primeiro caldeirão, coloque os
pertences salgados a cozer, inteiros; fogo baixo quando ebulir, duas horas
pelo menos até tudo estar macio; retire e reserve os pertences;
escalde os pertences defumados na mesma água, exceto um ou dois
pedaços se apreciar um gosto mais acentuado de fumaça, derrame
a água. Nessas duas horas em que cozem os pertences, você
vai escolher o feijão, tomar uma birita e conversar um pouco. Coloque
a água do caldeirão dois no um, junte o feijão, vá
escumando a borra preta, mais ou menos uma hora, assim que estiver cozido,
reserve aproximadamente a metade do feijão para fazer o caldo.
Com certeza você deve ter uma faca bem afiada em casa, pegue-a e
parta todos os pertences em tamanhos do seu gosto, verta-os a cozer com
o resto do feijão. Liquidifique o feijão reservado, a garfo
para os puristas, e junte no caldeirão, em breve verá seu
caldo se formando. Você está a mais ou menos uma hora do
final.
Os temperos são aromáticos e devem ser colocados no final.
Faça um bom refogado com cebola e alho e despeje no caldeirão,
coloque também uma laranja cortada ao meio. Se formar, retire a
camada de gordura com uma colher. Dê por terminado quando o conjunto
estiver bem amalgamado.
Para acompanhar sugerimos a farofa da Pagu ou farinha de mandioca torrada
em forno à lenha; molhinho de caldo de feijão com cebola
e pimenta de cheiro; couve à mineira ou escarola refogadinha e
arroz cozido somente em água. A caipirinha é tradicional
como aperitivo preliminar. Pense numa sobremesa digestiva como laranja
ou mesmo um suco de abacaxi com hortelã. Chame 10 amigos que saibam
elogiar, porque depois de toda esta labuta, é o mínimo que
podem fazer por você.
(in,
Revista O Caixote - cortesia de Sapo Noturno)
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